3 de agosto de 2010

Caixa deLápis



Prometo que na semana que vem tem texto novo! Pra não adiar mais a atualização trago um texto que escrevi pro blog de uma amiga quando João tinha pouco maias que um ano e meio.


caixa de lápis

Quando nossos filhos nascem, da barriga ou do coração, infelizmente não recebemos uma bula indicando as medidas adequadas de afeto, segurança, exigência, etc. Definir os limites das nossas ações está entre as questões mais complexas da maternidade. Excessos, inclusive de amor, tendem a causar mais danos que benefícios....

Tento me basear (quando viável) na metáfora do violão, usada por Buda. Ele dizia que as cordas desse instrumento poderiam se partir com um leve toque se estivessem esticadas demais; Se frouxas em demasia, não produziriam som. É exatamente o ponto do meio, do equilíbrio entre os extremos, que produz a vibração ideal das cordas quando tocada pelos dedos.

Dia desses tentei ensinar a João, de 1.8 meses, a guardar os lápis depois de desenhar. Ao final da brincadeira eu mostrava a ele o que fazer e como tudo poderia ser bem divertido. Não fui muito feliz nas primeiras tentativas, mas mantive a proposta. Eu dizia a mim mesma: se ele sabe onde estão os lápis e como despejá-los no chão, vai saber guardá-los. Criei, então, uma nova regra: encerrados os desenhos, somente passaríamos a outra brincadeira DEPOIS de guardar os lápis. Os choros se aproximavam de escândalos, mas fui firme e não retrocedi.

João ficou doente nessa época e na consulta ao pediatra, enquanto ele chorava com todo aquele mexe aqui, toca ali, eu tentei acalmá-lo: “olha, João, um peixe na parede!!”. O médico (linha dura) me disse para não fazer aquilo, pois demonstrava pra João que eu estava ansiosa e assim ele chorava mais e mais. Meio incrédula (e desconcertada) parei de falar, e, aos poucos, as lágrimas do galego cessaram. Fiquei impressionada!

Enquanto ele prescrevia os medicamentos eu inventei de mencionei a questão dos lápis, do hábito que eu estava lutando para implantar, etc. Ele comentou que achava uma ação inadequada para a idade. “É muito elaborado para quem não tem nem 2 anos”, disse. Foi o que bastou para eu sair da consulta me sentindo a reencarnação de Hitler. Talvez eu realmente tivesse ultrapassado a linha de Buda, e essa era a explicação para os altos volumes de choro de João com novo meu “método”. Para não mudar radicalmente de atitude resolvi que não abandonaria a idéia nos dias seguintes, mas pegaria leve no processo. Se ele não mostrasse avanços, em vez de insistir, eu deixaria o aprendizado para uma idade mais avançada (e adequada).

Dia seguinte, enquanto João fazia seus desenhos fui organizar umas coisas no quarto. Quando voltei, antes até de pensar em mencionar a palavra guardar, me deparei com aquele pequenino galego catando sozinho cada pedaço de lápis de cera e colocando lindamente dentro da caixinha. Os resultados vieram antes mesmo de eu “pegar leve”. Fiz uma festa, dei os parabéns e senti uma felicidade sem tamanho. Ganhei o dia, a semana, o mês. Atualmente, ele mesmo toma a iniciativa e reúne toda a confusão, sem reclamar.

Essa vivência me trouxe três aprendizados. O primeiro é que os hábitos não são criados de um dia para outro....é preciso obstinação e uma grande dose de segurança quanto ao que queremos e entendemos como correto. O segundo é que temos sempre que TRIAR as orientações médicas (elas são maravilhosas, mas têm sempre uma receita pronta, “tamanho único”) e o terceiro é que precisamos reavaliar constantemente nossas metas/ações (cada criança é diferente!) e ter o bom senso para manter o pé no acelerador, reduzir a velocidade ou até deixar o carro na garagem, nem que seja para dirigir novamente na semana que vem.






11 de março de 2010

REFLEXO

Um dos atos mais emocionantes entre mãe e filho é mesmo a amamentação. Não apenas porque o leite é um líquido mágico (como é que, sozinho, vale como arroz, feijão, água, suco, vitamina???), mas por causa do contato físico e visual.

Agora, com Bernardo, revivo as maravilhosas sensações de quando amamentava João. Uma delas, que me fazia e me faz "viajar" é poder me ver literalmente refletida nos olhos de Bernardo. Quando nos entreolhamos fixa e demoradamente, meu rosto aparece refletido no espelho dos olhos dele, num encanto que me faz percebê-lo como uma extensão minha, uma parte mesmo de mim, tendo a certeza de que muito do que sou/estou fará parte dele, como uma tatuagem.

Sempre que observo isso, inconscientemente meu sorriso se abre e a magia se repete, vejo minha alegria através dos olhos do meu filho. E penso a respeito da maternidade... no miúdo: trabalhão, amor, cansaço, satisfação. No graúdo, acho que é uma oportunidade de se reinventar, de ser uma pessoa melhor, por e para que esses pivetinhos que saem da gente (ou não) tenham o melhor de nós, saibam encontrar o melhor si mesmos nesse mundão, e façam diferença. Ou, então, podemos chamar tudo isso simplesmente de felicidade. (e a minha é tripla!!)





7 de janeiro de 2010

Primeira grande história de Bernardo


Nascido no corredor do hospital, nos braços do pai, eis Bernardo: 4.2kg, 53 cm e muuuita valentia.


Nos últimos dias de gravidez fiz um esforço tremendo pra lembrar da dor do trabalho de parto. Meu receio era não reconhecer o sinal e não ter tempo pra conversar com João e organizar a vidinha dele antes da ida ao hospital. Acho que a memória meio que esconde o jogo pra evitar traumas! A gente lembra que houve dor intensa, mas não "como" ela foi.

Mas é batata, quando senti um troço diferente no domingo (27/12) eu SABIA que aquele era O sinal. A programação do dia era levar Luquinhas ao aeroporto (estava de malas prontas pra passar as férias em Recife) e depois passear com papai e mamãe, que tinham chegado no dia anterior. Com a mudança de planos, Láercio foi levar luquinhas e eu fiquei brincando com João, a espera de mamãe e papai, que ficariam com o galego enquanto eu estivesse na luta! risos.

Bom, quando eu e Laércio chegamos ao hospital ficamos sabendo que a UTI neonatal estava lotada. Não havia vaga em nenhuma UTI dos principais hospitais. Achei aquilo estranhíssimo e juro que pensei (com minha cabeça de mulher que estava pra parir) que fosse algum sinal ruim. Além disso, meu médico estava viajando e não conseguíamos falar com o obstetra substituto. Ok, calma. Respira. Vai dar tudo certo. Repeti essas palavras umas 477 a cada minuto. As dores vinham com tudo e passavam com tudo.
Fomos a um segundo hospital (antes de saber da lotação geral) e o médico que me examinou fez o toque e disse que a dilatação era de 3 cm, mas que tudo ainda ia demorar bastante. "É melhor você voltar pra casa, descansar e esperar as contrações apertarem mais. A gente só interna a partir de 4 cm ou quando a bolsa rompe". Pra mim, diferença de 3 para 4 cm é praticamente zero..... mas nem esse argumento o fez mudar a orientação.... Enfim, voltamos pra casa.

Nesse meio tempo conseguimos falar com o médico substituto e ele também me disse que voltasse para casa e retornasse ao hospital às 15h30 para um um novo exame e tal. Em casa, comemos alguma coisa e as dores já estavam em alerta laranja. Resolvemos então sair "mais cedo" pro hospital. Na espera do elevador, a contração foi tão forte que senti necessidade de agachar e, quando dobrei as pernas, a bolsa estourou. Minha nossa, vamos!!!!!!!! As dores já vinham de um jeito que mal dava pra respirar.

Na chegada ao hospital lembrei bastante do parto de João. Esperamos na recepção um tempão até que organizassem a papelada, pedissem autorização do plano, coisas absurdas assim. Bom, mas lá estava eu naquele sofrimento novamente. As contrações davam até sensação de desmaio. Sentada na cadeira, disse pra Laércio: "esse menino tá nascendo".

Depois de um século e meio chegou a médica, andando calmamente....eu disse que estava com muita dor e que era difícil andar. Aí ela veio com a pérola: "Vamos indo porque não vai ser legal se nascer no corredor, não é?". Caminhamos um pouco em direção uma sala que ficava logo no início do corredor. Fui logo dizendo que queria anestesia e enquanto eu falava uma mulher tentava abrir a porta, mas a chave não encaixava... nisso, senti AAAA dor, virei pra hombressito e gritei TÁ NASCENDO! Ele colocou a mão embaixo de mim e disse que estava mesmo sentindo a cabeça de Bernardo. Pronto. Pânico geral. Com a dor, senti a necessidade de deitar e uma paciente que estava por perto correu pra pegar uns lençóis (a paciente me ajudou muuito!). Deitei ali mesmo, o que fez com que todos no hospital parou pra olhar "aquilo", e naquele desespero todo Laércio ajudou a médica a tirar Bernardo e depois colocá-lo em cima de mim. A médica gritava por uma caixa de parto e, de repente, quem tinha boca começou a chamar por algum funcionário que trouxesse essa bendita. Até o porteiro foi acionado!! Laércio levantou pra tentar agilizar o processo e só depois de um tempão (pra mim, uma era, mas laércio disse que foram 5 minutos) chegou a tal da caixa e finalmente o cordão umbilical foi cortado. Dá pra imaginar a cena?! Só então chegou o pediatra de plantão, que levou Bernardo pra ser examinado. Ainda deitada ORDENEI que hombressito fosse junto!!. Depois disso, enfim, subi numa maca. Eu simplesmente não conseguia acreditar no que tinha acontecido. Pari com sandália, vestido, brinco e marrafa, no chão do hospital. E o mais louco, DEPOIS de Bernardo ter nascido, lindo e cabeludo, fui pra sala de cirurgia. Quando eu estava lá pra retirarem a placenta e tudo o mais, o médico substituto chegou. Como disse Laércio, só se foi pra sair na foto.
Só sei que viramos sensação no hospital e vez por outra entrava alguém no nosso quarto "só pra ver" o bebezão que nasceu no corredor.
Enfim, dores, sustos e emoções à parte, o mais importante é que Bernardo nasceu muito bem e prontíssimo pra conhecer e viver esse mundão maravilhoso.
Beijo grande,
Juliana