Entrei no oitavo mês da gestação de Bernardo e agora estamos todos em contagem regressiva. Além da organização prática (arrumar, comprar) é necessário preparar o espírito pra nova vida que virá. E a minha será assim: um pivete com 13 anos que não quer estar comigo, outro com 3 que mal me deixa ir ao banheiro, e um que não vai saber nem arrotar sozinho! É mole ou quer mais? :)
O espaço físico reduz e tudo precisa ser minimamente modificado. Arrumação na área de serviço, na cozinha, nos quartos. Os armários de Lucas, por exemplo, receberão coisas de João, que agora vão dividir espaço com as cossitas de Bernardo. Tem também os ajustes psicológicos... toda uma tentativa de minimizar o impacto inicial da grande mudança na vida dos meninos, especialmente de João, por motivos óbvios.
Como em toda casa o novo irmão chega desorganizando geral pra depois encaixar tudo, de um jeito que todos logo terão a sensação de que o quinteto não poderia jamais ser quarteto ou trio, faltaria um pedaço. Assim, é nas entrelinhas da arrumação e dos comentários que a gente prepara a chegada de um e mostra pros outros que eles continuam sendo muuuito importantes.
Lucas vem ganhando coisas novas no quarto, planos pro futuro. De todo jeito, além da idade ajudar, ele já é experiente no assunto, esse é quarto irmão!!. No caso de João, o assunto Bernardo é tratado sem overdose. A gente quer evitar qualquer sofrimento ou sensação de perda que o pivete venha a ter (e vai ter), mas a verdade verdadeira é que crescer dói sim e é sofrido mesmo. Mas às vezes nós é que precisamos deixar que eles cresçam...Enfim, falo disso porque de um fato pequeno aprendi uma grande lição dia desses.
João entra na escola antes do horário (fica num plantão) porque eu tenho que chegar ao trabalho às 8h. Então ele sempre fica lá esperando o “toque” junto com outras crianças, cujos pais também têm compromissos ou alguma razão pra deixá-los ali antes da hora da aula. Como no meu caso é diário (não gosto, mas não há jeito!) faço um esforço sem tamanho pra buscá-lo dentro do horário, evitando que ele vá ao segundo plantão, que tem as mesmas características, com o agravante de que os pivetes assistem a “felicidade” dos amigos cujos pais aparecem "em tempo". Sempre tentei chegar na hora, mas, por conta de Bernardo e dessa coisa de querer evitar que ele se sinta abandonado e tal tenho movido céus e terras pra cumprir a ditadura do relógio.
Dia desses ele entrou no plantão falou o de sempre: “você me busca quando tocar a música?” e eu disse que sim e ele ficou todo contente. Acontece que eu não consegui chegar na hora.... fiquei presa no trabalho e como o dia foi de chuva o trânsito estava infernal as badaladas do meio dia tocaram e eu não estava lá. A sensação de culpa por ter prometido e descumprido é enorme e independe do “que” se trata a promessa.
Bom, quando entrei na escola ele estava num choro sofriiido.... meu coração ficou do tamanho de uma ervilha anã. Cheguei junto e ele falou logo “mamãe, a música já terminou...” É frustrante mesmo esperar sua mãe e ela não aparecer como combinou, mas isso é inevitável (jamais vou conseguir cumprir o horário todos os dias!!!) então pensei ali naquele momento que é melhor que ele cresça com o que aconteceu e se prepare para sofrer menos na próxima espera.
Com o coração cortado em ver a carinha dele (a gente sofre, não tem jeito), pedi desculpas pelo atraso, expliquei o que aconteceu e disse que nem todos os dias eu iria chegar na hora da música, mas que se fosse o caso eu chegaria logo em seguida, toda saudosa pra buscar meu cabrito galego. Ele fez uma cara de estranhamento ainda desfazendo o choro, mas ficou tranquilo, pra minha surpresa. Ou seja, EU estava dando um valor gigantesco a algo que pra ele era até importante, mas não tão essencial assim.
Esse simples episódio me alertou pra duas coisas: 1) a gente não consegue (nem deve) evitar todas as frustrações dos pivetes; 2) aquelas coisas que a gente faz ou mantém com medo que “dê bronca” podem muitas vezes ser um problema muito mais nosso do que deles. E se não for, se a bronca rolar, a gente pode muito bem resolver DEPOIS que acontecer..afinal, aqui pra nós, já temos problemas demais pra criar outros desnecessariamente, né?
beijo grande
12 de novembro de 2009
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