26 de novembro de 2009

Parto antes do parto

Depois de decidir que João e Bernardo ficariam no mesmo quarto comecei a arrumação. Um verdadeiro parto antes do parto.

Comprei a cama de João, o colchão, o protetor do colchão, desarrumei o berço (pra ele não ter vontade de dormir lá), mudei a cômoda de lugar, arrastei o puf, etc. Todos os dias eu sentava ali e ficava analisando as possibilidades de arrumação. Optei pelo equilíbrio: berço de um lado, cama do outro, cômoda no meio, encaixe do resto. E mexe aqui, arrasta, esconde ali. "Nossa, esse quarto vai ficar tão apertado!" É isso mesmo, calor humano é sempre bom! hahahaha

Uma semana depois sentei pra olhar e o meu comichão voltou. (tudo isso meio escondido de João, nos poucos horários de tempo "livre"). Levantei meio sem pensar e mudei tudo novamente (Isso, mesmo, com buxo e tudo). OK. "Não ficou tão legal... só que está mais funcional". Melhor. Assim, quando eu trocar Bernardo, consigo alcançar a fralda e tudo o que será necessário. Muito bem.

Dia seguinte, na hora da dormida.... Minha nossa, a cômoda agora tá tapando tomada! E o ventilador de João ficou do outro lado do quarto. Preciso de uma nova tomada, não dá pra deixar essa fiarada aqui no meio, é acidente na certa! Então vamos organizar isso. Ligo pra Damião (um faz tudo que conheço), pergunto se ele faz essa "cirurgia" e anoto as recomendações de compra.

Na loja, compro tudo e mais um "dimer", aquele aparelhinho que permite graduar a luminosidade do quarto. Beleza. Damião chega... "mas não é essa tomada, é outra"... Jesus amado. Combino dele vir outro dia e lá vou eu em nova peregrinação nas lojas elétricas, passando vergonha ao tentar falar de coisas que não sei.

- Como é o nome daquela tomada que fica assim na parede?
- o ZZZZHAO ou xywofog?
- Não faz pergunta difícil, moço!

Ok, nova compra.... "Se Damião disser que está errado é um homem morto".

Vamos em frente. Depois de um trabalhão ele colocou a nova tomada do outro lado. Quase engoli os brincos de felicidade. Fiz os testes. Ventilador funcionando, som ligando. YES!! venci mais uma.

-A senhora quer que eu também coloque o dimer no interruptor do quarto?
- Isso, coloca logo porque eu já pulo essa etapa também.

Eu não devia ter dito aquilo, acho que a felicidade anterior me embriagou. Ele mexeu, cavucou, tirou e botou. - Esse dimer tá quebrado..... Ou será a lâmpada? a pergunta foi pra mim, mas ele fingiu que era pra ele mesmo. Depois veio uma de verdade que quase faz Bernardo nascer...

- Esse armário sai?
- Ave maria, Damião. Sai não, por que?
- O fio quebrou atrás dele. Pra consertar.... só mexendo no móvel. Vai ter que chamar um marceneiro.
- Ãh? Damião, você tem noção da trabalheira que isso vai dar?

Cenas dos próximos capítulos: estou à procura de um marceneiro e até lá não teremos luz no quarto. :) Sim, tem mais sobre a cadeira de amamentação... mas isso fica pra outro post.

Beijo

Juliana (cansada da arrumação mas feliz DEMAIS com a chegada - agora breve - de um novo filhote!)

20 de novembro de 2009

Tempo presente

Disponibilizo aqui o ótimo artigo de Rosely Sayão, publicado ontem no caderno Equilíbrio da Folha de São Paulo, que nos faz refletir sobre a nossa participação no mundo consumista dos pivetes. Especialmente agora com a chegada no natal.


TEMPO PRESENE

Já começou a temporada de consumo do fim de ano. Os meios de comunicação informam as novidades em eletrodomésticos e eletrônicos que serão transformados em objetos de desejo e anunciam ofertas "imperdíveis" e prazos de pagamento tentadores para uma diversidade enorme de produtos.Nesse período, quase todo mundo passa a pensar no que gostaria de ganhar ou comprar para finalizar o ano com satisfação.

A frase "eu mereço" passou a ser a máxima que nos guia nessa onda de comprar, ter, querer ter. Incrível como o merecimento passou a ser usado para justificar a posse de bens, não é verdade?As crianças costumam ser as grandes vítimas do consumo exagerado. Não são elas que querem ter mais e mais, já que os adultos entraram nessa parada pra valer, mas são elas que estão mais sujeitas ao imperativo do ter, já que ainda não conseguem avaliar criticamente as demandas nelas introduzidas.Perguntei a algumas delas, com idades entre seis e dez anos, qual o último presente que ganharam. A maioria não soube responder. Algumas citaram vários brinquedos e eletrônicos, outras se esforçaram para lembrar, muitas ficaram na dúvida ou não se importaram com a resposta a dar porque qualquer uma valia.

Esse fato me fez pensar que a noção original de presente perdeu totalmente o valor para grande parte das crianças de classe média. Elas ganham tantas coisas sem motivo que passaram a considerar o presente algo trivial. Quase uma obrigação dos adultos para com elas.O que não pensamos ao dar tantos "presentes" às crianças é que, assim, lhes negamos o objetivo primordial do mimo, que é provocar a surpresa, a expectativa e a alegria de recebê-los.

Perguntei às mesmas crianças o que elas já tinham e o que ainda não tinham em matéria de brinquedos e aparelhos -seus novos objetos lúdicos.Muito mais fácil para elas foi listar o que queriam ter do que nomear o que já tinham e que gostavam de usar. Mais uma vez, é possível interpretar que a quantidade enorme de objetos que ganham não permite que elas desfrutem do uso deles.

Não é simples, para os pais, remar contra a maré do consumismo dos filhos, já que estes sabem argumentar quando querem algo: basta dizer que quase todos os colegas já têm o que pedem. E os pais, sem perceber que se trata de pura competição, atendem aos pedidos dos filhos porque creem que isso coloca seus rebentos dentro do grupo. Não é verdade.Para os pais que querem realizar o esforço, é bom saber que, pelo mundo todo, há movimentos sociais organizados contra a publicidade infantil para refrear o consumismo na infância, já que está comprovado que isso não faz bem ao desenvolvimento das crianças.

Por isso, caro leitor, antes de sair para comprar presentes para os filhos nesse fim de ano, lembre-se que seu tempo usado no convívio com eles é mais precioso que o dinheiro gasto para comprar coisas que eles pensam querer.

ROSELY SAYÃO é psicóloga e autora de "Como Educar Meu Filho?" (ed. Publifolha)

12 de novembro de 2009

Pequenas frustrações, grandes aprendizados

Entrei no oitavo mês da gestação de Bernardo e agora estamos todos em contagem regressiva. Além da organização prática (arrumar, comprar) é necessário preparar o espírito pra nova vida que virá. E a minha será assim: um pivete com 13 anos que não quer estar comigo, outro com 3 que mal me deixa ir ao banheiro, e um que não vai saber nem arrotar sozinho! É mole ou quer mais? :)

O espaço físico reduz e tudo precisa ser minimamente modificado. Arrumação na área de serviço, na cozinha, nos quartos. Os armários de Lucas, por exemplo, receberão coisas de João, que agora vão dividir espaço com as cossitas de Bernardo. Tem também os ajustes psicológicos... toda uma tentativa de minimizar o impacto inicial da grande mudança na vida dos meninos, especialmente de João, por motivos óbvios.

Como em toda casa o novo irmão chega desorganizando geral pra depois encaixar tudo, de um jeito que todos logo terão a sensação de que o quinteto não poderia jamais ser quarteto ou trio, faltaria um pedaço. Assim, é nas entrelinhas da arrumação e dos comentários que a gente prepara a chegada de um e mostra pros outros que eles continuam sendo muuuito importantes.

Lucas vem ganhando coisas novas no quarto, planos pro futuro. De todo jeito, além da idade ajudar, ele já é experiente no assunto, esse é quarto irmão!!. No caso de João, o assunto Bernardo é tratado sem overdose. A gente quer evitar qualquer sofrimento ou sensação de perda que o pivete venha a ter (e vai ter), mas a verdade verdadeira é que crescer dói sim e é sofrido mesmo. Mas às vezes nós é que precisamos deixar que eles cresçam...Enfim, falo disso porque de um fato pequeno aprendi uma grande lição dia desses.

João entra na escola antes do horário (fica num plantão) porque eu tenho que chegar ao trabalho às 8h. Então ele sempre fica lá esperando o “toque” junto com outras crianças, cujos pais também têm compromissos ou alguma razão pra deixá-los ali antes da hora da aula. Como no meu caso é diário (não gosto, mas não há jeito!) faço um esforço sem tamanho pra buscá-lo dentro do horário, evitando que ele vá ao segundo plantão, que tem as mesmas características, com o agravante de que os pivetes assistem a “felicidade” dos amigos cujos pais aparecem "em tempo". Sempre tentei chegar na hora, mas, por conta de Bernardo e dessa coisa de querer evitar que ele se sinta abandonado e tal tenho movido céus e terras pra cumprir a ditadura do relógio.

Dia desses ele entrou no plantão falou o de sempre: “você me busca quando tocar a música?” e eu disse que sim e ele ficou todo contente. Acontece que eu não consegui chegar na hora.... fiquei presa no trabalho e como o dia foi de chuva o trânsito estava infernal as badaladas do meio dia tocaram e eu não estava lá. A sensação de culpa por ter prometido e descumprido é enorme e independe do “que” se trata a promessa.

Bom, quando entrei na escola ele estava num choro sofriiido.... meu coração ficou do tamanho de uma ervilha anã. Cheguei junto e ele falou logo “mamãe, a música já terminou...” É frustrante mesmo esperar sua mãe e ela não aparecer como combinou, mas isso é inevitável (jamais vou conseguir cumprir o horário todos os dias!!!) então pensei ali naquele momento que é melhor que ele cresça com o que aconteceu e se prepare para sofrer menos na próxima espera.

Com o coração cortado em ver a carinha dele (a gente sofre, não tem jeito), pedi desculpas pelo atraso, expliquei o que aconteceu e disse que nem todos os dias eu iria chegar na hora da música, mas que se fosse o caso eu chegaria logo em seguida, toda saudosa pra buscar meu cabrito galego. Ele fez uma cara de estranhamento ainda desfazendo o choro, mas ficou tranquilo, pra minha surpresa. Ou seja, EU estava dando um valor gigantesco a algo que pra ele era até importante, mas não tão essencial assim.

Esse simples episódio me alertou pra duas coisas: 1) a gente não consegue (nem deve) evitar todas as frustrações dos pivetes; 2) aquelas coisas que a gente faz ou mantém com medo que “dê bronca” podem muitas vezes ser um problema muito mais nosso do que deles. E se não for, se a bronca rolar, a gente pode muito bem resolver DEPOIS que acontecer..afinal, aqui pra nós, já temos problemas demais pra criar outros desnecessariamente, né?

beijo grande